Depois que enviei minha última carta senti uma vontade desesperada de explodir a caixa de correios e pegá-la de volta. Não fiz isso como você pode ter notado. Passei dias aflita (bom, agora você sabe que sou uma mulher) pensando em como você receberia aquelas palavras um tanto ríspidas. Não costumo ser daquele jeito mas a liberdade de escrever sem saber o destinatário tem dessas coisas. Quando recebi sua resposta tive a certeza que ter enviado foi a melhor coisa a fazer, pois você mostrou ser uma pessoa muito doce apesar da minha falta de delicadeza. Isso me fez lembrar de um poema de Neruda:
Esperemos
Há
outros dias que não têm chegado ainda, que
estão fazendo-se
como o pão ou as cadeiras ou o produto
das
farmácias ou das oficinas
- há fábricas de dias que virão -
existem
artesãos da alma
que levantam e pesam e preparam
certos
dias amargos ou preciosos
que de repente chegam à porta
para
premiar-nos
com uma laranja
ou assassinar-nos de imediato.
E foi assim que esperei a correspondência da semana: na ansiedade se receberia uma laranja ou se seria vítima de um assassinato.
Querido S., sinta-se livre para perguntar o que quiser - o que não dará a certeza de que responderei todas as perguntas -, porque assim vamos criando laços. Não sei quem eu sou nesse enredo mas espero permanecer nele por um longo tempo.
Um oi do lado de cá,
A.

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