segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Querido S.,

Depois que enviei minha última carta senti uma vontade desesperada de explodir a caixa de correios e pegá-la de volta. Não fiz isso como você pode ter notado. Passei dias aflita (bom, agora você sabe que sou uma mulher) pensando em como você receberia aquelas palavras um tanto ríspidas. Não costumo ser daquele jeito mas a liberdade de escrever sem saber o destinatário tem dessas coisas. Quando recebi sua resposta tive a certeza que ter enviado foi a melhor coisa a fazer, pois você mostrou ser uma pessoa muito doce apesar da minha falta de delicadeza. Isso me fez lembrar de um poema de Neruda:

Esperemos
Há outros dias que não têm chegado ainda, que estão fazendo-se 
como o pão ou as cadeiras ou o produto
das farmácias ou das oficinas 
- há fábricas de dias que virão -
existem artesãos da alma 
que levantam e pesam e preparam
certos dias amargos ou preciosos 
que de repente chegam à porta
para premiar-nos 
com uma laranja 
ou assassinar-nos de imediato.

E foi assim que esperei a correspondência da semana: na ansiedade se receberia uma laranja ou se seria vítima de um assassinato. 

Querido S., sinta-se livre para perguntar o que quiser - o que não dará a certeza de que responderei todas as perguntas -, porque assim vamos criando laços. Não sei quem eu sou nesse enredo mas espero permanecer nele por um longo tempo.

Um oi do lado de cá,
A.


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